2008
05.14

Comunidades geograficamente definidas (eg: vizinhança) foram o padrão de sociabilidade desde os primórdios da humanidade até o início da era industrial. Esta forma de socialização não desapareceu, mas tem um papel cada vez menor em sociedades modernas. O individualismo é a tendência dominante nas relações sociais em nossas sociedades e dele vemos surgir agora um novo sistema de relações sociais centrado no indivíduo, que vem sendo chamado de Comunidades Personalizadas ou Individualismo em Rede.

Um encadeamento de fatores nos traz essa nova realidade:

  • A individualização da relação entre capital e trabalho e entre o trabalhador e o processo de trabalho;
  • A crise do patriacalismo e desintegração da família nuclear tradicional;
  • Os novos padrões de urbanização onde subúrbios e condomínios isolados fragmentam o sentido espacial de existência;
  • A crise de legitimidade política, que afasta o indivíduo da esfera pública.

A Internet contribui em muito para o estabelecimento do Individualismo em Rede. Não que ela tenha criado este padrão, redes sociais desse tipo sempre existiram fisicamente ou mediadas por tecnologias como o computador ou o telefone. O que acontece é que com a Internet, a rede social centrada no indivíduo ganha força para se tornar a forma dominante de organização social.

Redes Sociais on-line são especialmente eficazes na criação e manutenção de “laços fracos”, aqueles que seriam perdidos se depedessem de um esforço de comunicação maior como um telefonema periódico, por exemplo. Amigos de infância, parentes distantes, antigos colegas de trabalho são exemplos desse tipo de relacionamento. Redes que crescem em torno de interesses específicos criam novos laços fracos, relacionamentos que raramente chegarão a um único encontro pessoal, quanto menos a uma relação duradoura. Mas, se as conexões específicas não são duradouras, o fluxo de novas relações é permanente, e essa é uma das manifestações sociais do individualismo em rede.

“O indivdualismo em rede é um padrão social, não um acúmulo de indivíduos isolados”. Como as pessoas podem pertencer facilmente a várias redes, indivíduos tendem a construir seus portfólios de sociabilidade, investindo diferentemente sua atenção a cada uma delas. Fica visível aí a diferença entre os conceitos de comunidade e individualismo em rede:

  • Em uma comunidade o foco está no coletivo, que permite ou não a participação de cada indivíduo em busca do bem comum, proporcionando sociabilidade, apoio, informação e um senso de integração e identidades social;
  • No Individualismo em Rede é cada indivíduo que escolhe quem fará parte de sua rede pessoal, buscando o benefício dele mesmo. Cada rede individual é única, e muitas vezes seus integrantes não desenvolvem um relacionamento direto entre si, somente com o indivíduo central. A maior parte dos relacionamentos são laços fracos.

Disso decorre uma extrema flexibilidade e diversidade do relacionamento, mas também é uma maneira de acentuar a dissolução de instituições sociais tradiconais. Nossos desenvolvimentos tecnológicos estão aumentando as chances do individualismo em rede se tornar a forma dominante de sociabilidade. Assim estamos construindo a sociedade em rede. E é conflitante para nós que vivemos esta transição escolher entre o apego às tradições que constroem nosso imaginário ou a busca de uma nova forma de sociabilidade, altamente libertária, mas sem grande referências que nos dêem sentido.

Referências:

The Social Affordances of the Internet for Networked Individualism, Barry Wellman
Little Boxes, Glocalization, and Networked Individualism, Barry Wellman
A Galáxia da Internet, Manuel Castells

2008
05.07

O sucesso da implantação de um projeto de Inteligência coletiva depende, e muito, da criação ou escolha correta da ferramenta que servirá de suporte para ela.

Seja a comunidade em rede articulada ou desarticulada, consciente ou inconsciente, a ferramenta de suporte para ela precisa apresentar um pré-requisito fundamental: toda a sua criação e seu desenvolvimento deve ser voltado à comunicação horizontal, de muitos para muitos e em rede. Desde a sua origem até a sua manutenção precisam ser guiadas por este conceito.

Sites alinhados a este conceito de comunicação estão definindo tendências para as ferramentas de inteligência coletiva a medida em que se desenvolvem. A tabela a seguir compara características de sites baseadas no modelo um-para-muitos com sites que adotam o conceito muitos-para-muitos: 

Sites um-para-muitos Sites muitos-para-muitos
  • Gestor de conteúdo
  • Conteúdo sem interação
  • Informações sem medição de relevância
  • Usuários leitores
  • Relacionamento Instituição > Usuário
  • Usuário Invisível
  • Animador de comunidade
  • Conteúdo interativo
  • Informações com medição de relevência, a partir do rastro
  • Usuários leitores/redatores
  • Relacionamento Usuário < > Usuário
  • Usuário visível

 

Os autores descrevem os cinco ambientes que formam uma ferramenta de Inteligência Coletiva:

Ambiente do Usuário
Cada usuário deve ter o seu espaço individual, que é o ponto de partida para toda atividade realizada por ele na rede. Ali ele estabelece sua identidade à medida em que disponibiliza informações que considera relevante. Deve estar a disposição do usuário neste ambiente as ferramentas de publicação e interação que ele possa fazer uso. A ferramenta deve também permitir uma articulação entre este espaço e o espaço das comunidades que o usuário aderiu. 

Ambiente de Comunidade
Deve permitir a publicação de conteúdo próprio da comunidade por seus membros, apresentando as ferramentas de publicação e interação adequadas. É importante que seja trabalhada também a Inteligência Coletiva Incosciente, através do aproveitamento do rastro das ações de cada usuário que passe por ali, e que estes dados sirvam para uma edição automática do conteúdo por relevência.

Ambiente de Animação
Deve ser oferecido aqui instrumentos para que se analide o conjunto de contribuições realizadas e destaque aquelas capazes de gerar mais conhecimento ou ao menos fazer a comunidade avançar em seu funcionamento. Isso é fundamental para guiar a comunidade rumoa seus objetivos estratégicos e projeto geral. A animação pode ser realizada por uma pessoa, um grupo ou ainda pelo próprio software de maneira automatizada.

Ambiente de Administração
Este ambiente deve oferecer instrumento para o acompanhamento e controle, atrvés de relatórios, de toda a atividade dos usuários e comunidades, e sistemas de avaliação do desempenho do projeto.

Ambiente de Busca
É necessário a disponibilização de um mecanismo de busca por conteúdo, pessoas e comunidades. É interessante o uso de folksonomia (tags), o que permite que a própria comunidade, a medida em desenvolve o conteúdo estabeleca parâmentros para sua referenciação.